O APOSTOLADO PROFÉTICO DA BICICLETA REDENTORA

Após mais uma inesquecível reunião extra-massa crítica na Praça do Ciclista, fui assediado por vários questionamentos muito íntimos:

felicidade depende necessariamente de adesão a estereótipos sociais considerados padrão?

Será que essa maioria que se pauta à risca pelos parâmetros consumistas consagrados pela imagem midiática é realmente feliz?

Essas questões me remeteram à revisitação de conceitos exclusivamente subjetivos das definições de felicidade e satisfação, quimeras as quais, segundo os mais doutos, podemos apenas perseguir, jamais alcançar. Para mim, elas sempre estiveram relacionadas a benefícios inusitados – ou a oportunidades de vivenciar situações e fatos incomuns à maioria das pessoas, situações fora da banalidade, ou em uma palavra, experiências extraordinárias.

À minha volta na Praça sábado, eu só via protagonistas surreais, personas absolutamente insólitas: um condutor de bicicleta de dois andares, o piloto da bicicleta de downhill sempre de capacete de MotoCross, um rapaz de bicicleta com bauleto amarelo-limão e colete de segurança laranja, outro chegando a bordo duma bicicleta equipada com pasmem, um reboque amarelo – para citar apenas alguns, evitando prolixidade, a lista de personagens e predicados é extensa – todos ali sem exceção, fazendo um brutal e contundente contraste – em aparência e atitude – com a uniformidade do cabisbaixo e emburrado rebanho humano pasteurizado e hermeticamente enlatado que desfilava ao nosso redor a perseguir a felicidade nas ilusões projetadas pelo monstruoso engenho autofágico da mídia de consumo.

Um autor, contista ou roteirista dos mais geniais, teria feito uma dose considerável de esforço mental para idealizar tantas personagens e situações tão insólitas quanto as que ali se reuniam, ou seja, era a vida superando a arte em grande proporção.

Lá estávamos, sob um inacreditável gazebo improvisado com lona plástica, provavelmente o único já engendrado no local – pois chovia, e não era pouco – celebrando um aniversário e talvez inconscientemente participando da “ocupação global” programada para a data. Havia churrasco, um bolo, parabéns, todos riam, comiam, bebiam, brincavam, conversavam, havia até música proveniente de uma sofisticada gambiarra movida a bateria, de obra e graça dos próprios festeiros, isso, em lugar nenhum outro que uma praça pública no início de uma das mais famosas avenidas do mundo!

Chovia e ventava, mas nem a chuva e o vento seriam capazes nem de fazer decolar a lona, nem de apagar o braseiro da churrasqueira, nem as chamas encantadas que por um instante pude enxergar nos corações dos que lá estavam. Enfim, naquele instante estremeci, pois começou a me ocorrer uma epifania e de repente pude enxergar todos ali como seres fantásticos de uma dimensão mágica, com almas de eternas crianças, imunes ao ranço do rancor, dos tempos e das eras, portanto imortais, criaturas feitas de felicidade e de esperança, de tudo capazes, os quais, destemida e confiantemente, como fariam imaginários duendes, transubstanciaram de estalo uma árida, hostil e estéril plaga urbana num pedaço do paraíso. E eu, ali perplexo, me senti absolutamente privilegiado e comovido por estar ali, fazendo parte daquela guilda mágica.

Naquele instante, fiz uma impactante constatação íntima: eu finalmente estava efetivamente FELIZ.
Enfim, analisando fatos friamente, foi uma genuína ocupação urbana, cujos perpetradores foram reunidos, talvez apenas graças à sua predileção pela humilde, silenciosa, modesta, conscienciosa, confiante e altruísta trapizonga metálica que pesa pouco mais de dez quilos, que recebeu o nome de bicicleta.

E prosseguiam as questões: será que se todos ali tivéssemos saído, cada qual em seu carro, para alguma balada, teríamos nos divertido mais? Seríamos então, indivíduos tão diferenciados? Teríamos nós, que lá estávamos reunidos, sequer nos conhecido nessas condições? Teria eu vivenciado esse episódio absolutamente incomum de uma vida, em circunstâncias “socialmente padronizadas”, ou seja, regidas pelo binômio carro-balada, configuração-padrão do entretenimento individual atual? Teria qualquer grupo de motorizados tido a audácia de ocupar um espaço urbano de forma tão impávida, inusitada e heróica como fizemos nós, os “modestos” pedalistas? Nem no meu pregresso motoclube tínhamos, e duvido que qualquer grupo de adeptos das quatro rodas teria.

Uma última questão me ocorreu – será portanto, uma invenção tão simples, justamente a bicicleta, o denominador comum, o nivelador absoluto capaz de sobrepujar egos, autoestimas, presunções e arrogâncias, circunscrevendo as pessoas à sua condição humana definitiva e peculiar a todos? Será ela então o esperado milagre, figurativamente assumindo a forma de uma intervenção messiânica impessoal, capaz de “passar a humanidade a limpo”?
Não é a primeira vez que digo: estamos escrevendo a história. Nós – por enquanto minoria – que agora pedalamos, somos verdadeiramente os arautos de um novo amanhecer para a Humanidade. E os raios de sol deste novo amanhecer principiam a aparecer, quando começam a se dissipar as negras nuvens de fumaça dos motores. E que sejam apenas estas as nuvens, jamais as de nossa própria presunção ou arrogância. Que seja maior aquilo que nos une, do que o que nos divide. Que valham mais nossas semelhanças do que as diferenças. Bem-aventurados aqueles que pedalam. Estamos todos salvos. Vamos todos levar a boa nova ao restante da Humanidade.

Minhas fotos do evento:

https://picasaweb.google.com/104986377182187815496/CHURRASCATOUT2011

KDF

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