RIQUEZA INTERIOR NÃO TEM PREÇO

fortune1

Certa feita, enquanto ainda pagava sua dívida cármica numa de suas múltiplas encarnações, pouco antes de atingir a perfeição e partir em definitivo para o Nirvana, de onde hoje, orienta os menos iluminados que ele próprio elege – entre eles, este que vos fala – Mestre Lótus, o asceta sábio andarilho, proveniente do mosteiro de Qiuxin, seguia para o norte, rumo às montanhas Wuyi, havendo acabado de percorrer em parte e cruzar a Grande Muralha – então recém-construída – e chegava à rica província de Qinang, atual cidade de Mianyang, Província de Szechuan, China, então morada de abastados nobres, cortesãos e altos funcionários públicos e mandatários e autoridades militares reformadas.

A fama de sábio que precedia Mestre Lótus era reverenciada tanto por plebeus quanto por altas autoridades. E antes mesmo que ele chegasse às cidades, sua visita já haveria sido antecipadamente anunciado por estafetas oficiais – os paparazzi da época, um misto de carteiro, repórter e olheiro do Estado, que se deslocavam velozmente a cavalo – e ele era aguardado sempre com grande expectativa. Ao chegar à comarca, assim que adentrou a praça do mercado local, sua chegada se propagou rapidamente de boca em boca e, num piscar de olhos, ele foi assediado por uma multidão de curiosos e aflitos, que se acotovelavam em busca de seu aconselhamento: homens e mulheres; velhos e jovens; ou muito ricos, ou muito pobres – a infelicidade parece perseguir esses dois extremos, segundo diz o próprio Mestre, que a todos encantava com suas prosas filosóficas, declamadas em resposta às aflições dos consulentes, ao som de seu guqin ou sanshin, instrumento de cordas predecessor do shamisen, do okotô e do alaúde.

Mal havendo dado início à sessão do dia, assentado em posição de lótus, o Mestre bebia um pouco d’água de seu wulu – o equivalente à nossa cabaça – e engasgou, no instante em que acorreu-lhe afoito, precedido por um engalanado oficial da guarda imperial que abria caminho através da turba alvoroçada, um imponente e opulentamente trajado nobre, alto assessor do mandarim de Khai-Shieh. quem aos prantos, exclamou:

“Mestre! Eis que sou um desafortunado! Imagines que, hoje pela manhã, enquanto eu era transportado em minha liteira, ao cruzar a praça do mercado, deixei cair minha bolsa de dinheiro! Havia mendigos e eles se lançaram rapidamente sobre a bolsa e seu conteúdo desapareceu! Nela havia mais de trezentos taéis de ouro e três mil taéis de prata, que eu estava levando ao banco, para completar minha fortuna total de setecentos e cinquenta mil taéis de ouro e quase doze milhões de taéis de prata! Em seguida, ao chegar ao palácio, um dos servos eunucos veio até mim correndo, para avisar que minha residência de inverno em Pingnyang fora atingida há quatro dias por um raio e totalmente devorada pelas chamas! Era uma das mais belas de minhas onze propriedades em Suzhou, no Vale de Jiuzhaigou! E como se não bastasse, um dos meus dezessete cavalos de passeio puros-sangue mongóis prediletos pastou num arbusto de musamusa e morreu envenenado! Meu assessores até sugeriram que eu mandasse decapitar o estafeta portador de notícias tão nefastas, mas qual! Não o fiz, porque, não fosse ele, eu saberia de algum outro jeito! Mas ai de mim! Veja como estou desgraçado! Por favor, tira-me deste desespero, Mestre!”

Mestre Lótus, engolindo ruidosamente a água que havia em sua boca, colocou de lado o guqin e o wulu e, pigarreando antes, disse ao homem:

“Aproxima-te e assenta-te diante de mim!”

O oficial da guarda imperial o interrompe:

“Não, excelência! Assentar-se no chão com esse proscrito não é de bom tom, é indigno de vossa classe superior!”

Ao que o nobre respondeu, alterado, num inesperado arroubo de sabedoria:

“Se o chão não é digno de que eu o toque, acaso deveria eu amputar meus pés e aprender a levitar? E se os comuns não são dignos de partilhar de minha melíflua voz e de minhas falas requintadas, acaso deverei eu ter minha língua decepada?”

O oficial silenciou-se. E ele então assentou-se diante do mestre, em atitude reverencial.

Mestre Lótus, boquiaberto, assombrado com a súbita explosão de sensatez do nobre, pois a mesma não é comum dos abastados, recompôs-se e indagou-lhe então:

“Quanto dinheiro disseste que possues?”

Reesponde o nobre, em tom delirante:

“Setecentos e cinquenta mil taéis de ouro e quase doze milhões de taéis de prata! E isso, apenas no banco em Szechuan, sem contar nos outros três bancos! Minha fortuna pessoal é maior do que a de todos os cunhados do mandarim, juntos!”

“E quantos cavalos disseste que possuía?”

“Dezessete cavalos de passeio, todos do mais puro sangue mongol! Animais guerreiros, prontos para o combate, manteúdos e bem-domados e adestrados, tão belos que até fariam inveja ao plantel do próprio Gengis Khan! E que agora são apenas dezesseis! Ai de mim! Ai de mim!…”

“E quantas casas disseste que tinha?”

“Ah, não são propriamente casas, são autênticos palácios! No total, são mais de cinquenta, espalhados por toda a China! Só em Suzhou, no Vale de Jiuzhaigou, são onze, ricamente ornamentados com jardins, caminhos, pontes, labirintos de sebe, chafarizes, riachos e espelhos d’água! Ou melhor dizendo, agora são apenas dez… ai, que desgraça!”

E pôs-se a chorar, copiosa e inconsolavelmente.

Mestre Lótus olhou para o guqin a seu lado, com intenção de pegá-lo para tocar algumas notas e improvisar alguns versos para a ocasião, mas refletiu que aquele era um momento menos burlesco.

Fechou os olhos, inspirou profundamente, com as mãos unidas no “mudra do saber profundo” – gesto que foi esforçadamente imitado pelo nobre – e proferiu a sua expressão de sabedoria:

“Bem-aventurado és tu, e todos aqueles que possuem o bastante para perder o quanto carregam consigo e, tanto ainda lhes resta, que tudo o que perderam jamais lhes fará falta… enquanto a maior das malaventuranças é perder aquilo que ainda não se tem, ou aquilo que não pode ser restituído… e não ser capaz de obter aquilo que se precisa. Há quem não tenha sequer uma mísera moeda, nem meios de obter alguma, pois também não têm braços, nem pernas.”

O pranto do nobre cessou imediatamente. Sua careta chorosa esvaiu-se. Em seu lugar, via-se então uma expressão que irradiava tranquilidade, segurança e paz. Ambos abrem seus olhos.

Fitando fixa e profundamente dentro dos olhos macilentos do mestre, o nobre então diz:

“Consolaste minha dor. Sou-lhe eternamente grato. Acompanha-me ao palácio do mandarim de Khai-Shieh, onde vos nomearei oficialmente dignatário e vos pagarei um bônus semanal vitalício, além de ofertar-lhe uma fortuna equivalente a mil vezes o que perdi hoje!”

Em sua voz esganiçada e grasnante o Mestre ri e responde:

“Ih, ih, ih! A tua generosidade enternece o meu coração, mas de nada disso necessito! Aonde quer que eu vá, sou acolhido e recebo água, comida, afeição, ouvidos atentos e estadia! Sou grato por poder alentar aqueles que sofrem, para que o penar de suas existências seja mitigado! De nada mais necessito para ser feliz!”

E prossegue, proferindo uma frase que sintetiza uma das maiores sabedorias já enunciadas:

“Faze bom uso da tua fortuna! Se tens uma amora na tua mão, come-a, pois se guardá-la no bolso, ela irá apodrecer! Farta-te com os frutos da vida, antes que pereçam! De pedras e varas é feita a prisão do bárbaro, mas de pesados taéis de ouro e prata ergue-se o cárcere dos ricos, que jamais desfrutarão de tudo o quanto amealharam, nem nesta vida, nem na próxima! Não há bancos, nem entrepostos, nem corretoras na sublime dimensão da perfeição!”

A princípio indignado com a recusa do Mestre e seu aparente desprezo pelas suas vastas posses, o dignatário faz menção de levantar-se, mas no instante seguinte, suspira, engole seco e continua a fitar o Mestre profundamente em seus olhos, quem prossegue lhe dizendo:

“Zela pelos maiores patrimônios espirituais que possues, que são: a serenidade e a confiança! Se elas tiveres, poderás ter todas as outras coisas!”

Serenamente e com movimentos lentos e seguros, o nobre enfia a mão num dos bolsos de seu hanfu e retira dele uma pequena moeda de prata, oferece-a com ambas as mãos diante da fronte e a deposita na gasta e ensebada tigela do Mestre. Então, ele une as mãos em agradecimento, faz uma longa mesura, levanta-se e, antes que desapareça em meio à multidão, é alcançado por um servo eunuco, que lhe diz:

“Senhor meu amo! Senhor meu amo! Corre a notícia de que o banco em Szechuan foi roubado esta noite e todo o dinheiro que estava nas caixas de depósito foi levado! Ai, senhor meu amo, é muita desgraça para vós, num só dia! O que pretendeis fazer?”

Do alto de uma aparente serenidade, ele exclama displicentemente: “Nada.”

“Mas como assim, nada farás, senhor meu amo? Perdeste o senso, ou algo semelhante?” inquire atônito, o servo eunuco.

Ao que o dignatário responde, cabisbaixo a princípio, em voz baixa e cada vez mais inflamada, brandindo seu punho cerrado, ao concluir a sentença:

“O maior dos infortúnios seria se eu perdesse aquilo que não tenho, ou se não pudesse obter o menos que precisasse. Ainda tenho dois braços, duas pernas, uma cabeça e portanto, posso reaver tudo o quanto me for tirado e muito, muito mais. Bom dia pra você.”

E afastou-se, misturando-se rapidamente ao populacho, deixando para trás o apalermado e boquiaberto servo eunuco, para então, nunca mais ser visto.

Distraído, o vetusto oficial da guarda que o guarnecia, sequer percebeu que seu senhor amo o deixara para trás e, atônito, olha e procura em toda parte e clama por ele, mas sem esperança.

Nesse dia de nossa tertúlia, indaguei eu, ao Mestre Lótus:

“O que sucedeu ao dignatário de Shezhuan?”

Ao que ele respondeu:

“Não tive mais notícias. Sua história e seu nome hoje já são praticamente um mito. Há quem diga que separou-se de sua concubina favorita de Qinang e que teria sido visto numa patética romaria, se embebedando até cair e dissipando o que restara de sua fortuna com as mais caras prostitutas, peregrinando pelos cabarés, bares e prostíbulos da zona portuária de Xujiahui, atual Shanghai. E que mais tarde, ele teria sido visto andando errante como eu, envolto em andrajos e de pés descalços, mundo afora. Segundo outros mais, ele teria doado tudo o que lhe restava aos asilos, aos mosteiros, aos albergues e aos pobres e, pobre e fraco, no final da existência, retirou-se para o mosteiro em Wuyi. Seja como for, tenho certeza de que ele agora está mais feliz e é um homem bem mais rico do que era, pois antes, suas posses eram apenas materiais e valiam apenas neste mundo e, agora, ele desvelou um vasto tesouro espiritual; são riquezas de um tesouro mágico que não se pode exaurir, nem dilapidar, quanto mais prodigamente são esbanjadas, mais se multiplicam, têm o valor que nenhuma quantidade do ouro mais puro e dos rubis mais nobres poderiam jamais alcançar e valem tanto na terra mortal e, mais ainda aqui, neste outro mundo, que se chamam: sabedoria, vivência, experiência, bagagem de vida.”

E prosseguimos nós dois, eu e Mestre Lótus, conversando e caminhando pela planície de Shangrilah, enquanto ele me contava outras histórias. Mas elas serão assunto, talvez, de nossos próximos encontros. Namastê.

Originalmente publicado em facebook.com/groups/noveon

 

É A ESTUPIDEZ, ESTÚPIDO!

stupid1

Saudações, crianças terráqueas.

Assim é o nosso Oráculo do Dragão, às vezes, como alento, doce como o sussurro de uma mãe a contar estórias de ninar para seus rebentos, noutras como advertência, ríspido como o vociferar de um pai admoestador E não raro, sendo ambas as coisas, como agora, trazendo especialmente hoje uma antiga fábula, esquecida por ser tão imemorial quanto as planícies do Cazaquistão, aos pés dos montes Urais, onde ela se desenrola. Não, não adianta procurar no Google, pois esta estória familiar russa é passada de pai para filho e me foi contada por meu grande amigo “Yuri”, da máfia russa – Vor V Zakone – ex-capitão do exército soviético, fugitivo dum gulag em 1976 onde esteve detido e hoje refugiado no Brasil, onde ministra cursos e importa e comercializa finas matérias-primas para a falsificação, digo, produção doméstica e artesanal de bebidas, perfumes e cosméticos. Mas isso não vem ao caso.

Conta a lenda que na Rússia dos czares, houve uma vez um lenhador muito pobre e já idoso, cujas únicas posses eram: seu casebre de toras, uma velha carroça, seu machado mantido sempre bem-afiado, seu velho e ensebado cachimbo e um velho e mal-tratado asno. Todos os dias, lá estava o velho lenhador derrubando jovens salgueiros, álamos, choupos e olmos brancos e dividindo-os em toras do comprimento de sua carroça e com elas formando pilhas, que seriam carregadas e vendidas na manhã seguinte, no mercado de seu vilarejo.

Um belo dia, enquanto guiava a carroça, o lenhador percebeu que nasciam duas estranhas protuberâncias nas costas de seu asno. “Devem ser duas belas bicheiras!” exclamou, tragando e dando outra baforada em seu fedorento cachimbo e estalando as rédeas, fazendo o asno apertar o passo. Dia após dia, o velho lenhador observava as protuberâncias aumentarem, misteriosamente. Até que, certa manhã, olhou pela janela e viu seu asno pairando no ar, a poucos metros de altura do chão, contido apenas pela corda que o amarrava. “Devo estar sonhando!” disse o velho, que correu para fora, ainda em pijamas, e viu que das duas saliências nas costas de seu animal de tração, havia brotado um belo par de asas prateadas. É que na verdade, seu pobre e negligenciado asno não era uma cavalgadura comum e sim, um magnífico Pégaso, que havia enfim, atingido a idade de sua metamorfose. Sem pestanejar, o velho foi buscar seu fiel e sempre bem-amolado machado e, com golpes únicos e certeiros, decepou cada uma das asas do animal. Seu vizinho, pastor de cabras que não morava muito longe dali, assistia à cena e questionou, indignado: “Mas por que fizeste isso? Um asno voador seria capaz de transportar muito mais lenha e muito mais rápido! Imagine, o senhor poderia ir voando todos os dias, levar a lenha para o mercado!” Ao que o velho respondeu, enquanto limpava o sangue do machado: “De jeito nenhum! Imagine se ele saísse voando por aí e não voltasse mais! Como eu iria levar a minha lenha para vender?” E mau-humorado, bateu a porta de seu bangalô.

Pouco depois, ele açoitava o pobre asno caminho afora, para que puxasse a pesada carroça, através do charco do degelo dos Urais, conduzindo a lenha para o mercado e, no caminho de regresso, arrastava penosamente a velha e rangedora carroça, repleta de mantimentos para si e para seu vizinho, com quem o velho os trocava por carnes de cabrito.

Na manhã seguinte, o velho acordou ressabiado com um ruído alto, como um rufar de grandes asas. Olhou pela janela e… lá estava de novo, seu asno pairando no ar, flanando suas prateadas asas. “Com mil demônios!” vociferou, ao agarrar seu machado e irromper porta afora, decepando de um único golpe ambas as asas, aproveitando-se do fato que a corda que amarrava o animal era bem curta e não permitia que ele pairasse mais alto. “Maldito seja este animal estúpido!” urrava. E, repetiu-se neste dia, o calvário de anos a fio do pobre asno: tracionar a pesada carroça de toras para o mercado pelos charcos do degelo dos Urais na Primavera e com ela retornar, carregada de compras.

Debilitado pela hemorragia da amputação negligenciosa das asas e pela fadiga, o pobre animal enfim, pereceu. “Que vá puxar a carroça do diabo!” Exclamou o velho lenhador. Enquanto amolava seu estimado machado, sofreu uma violenta crise de tosse e, logo seguir, desabou pesadamente no chão de tábuas da cozinha. Seu vizinho escutou o baque e, alarmado, acorreu em seu auxílio e arrastou-o com dificuldade, colocando-o em sua cama. Os anos da fumaça de mistura de ervas do cachimbo do velho haviam finalmente cobrado seu derradeiro tributo.

Durante a madrugada, as crises de tosse foram piorando e, pela manhã, o pobre velho já se esgoelava, arfando e boquejando qual peixe fora d’água, em busca do ar que lhe faltava. Dias se passaram, em lenta agonia. Seu vizinho à sua cabeceira, havia lhe trazido uma parca refeição, pois os mantimentos em ambas casas já estavam no fim. Admoestou ele: “Vês o que fizeste, velho? Se não tivesses arrancado as asas do pobre asno, ele poderia levá-lo até a cidade voando, em busca de um médico! E já quase não tenho o que comer em minha casa, quanto mais o que lhe dar de comer! Um asno voador poderia teria levado muito mais lenha para vender e trazido muito mais mantimentos para as nossas despensas! Viste o que foste fazer, velho?”

E aproveitando o longo fôlego de seu derradeiro suspiro, o velho lenhador justificou:

“AO MENOS EU NÃO DEIXEI ELE FUGIR DE MIM!”

E expirou.

Moral da história…

KDF