É A ESTUPIDEZ, ESTÚPIDO!

stupid1

Saudações, crianças terráqueas.

Assim é o nosso Oráculo do Dragão, às vezes, como alento, doce como o sussurro de uma mãe a contar estórias de ninar para seus rebentos, noutras como advertência, ríspido como o vociferar de um pai admoestador E não raro, sendo ambas as coisas, como agora, trazendo especialmente hoje uma antiga fábula, esquecida por ser tão imemorial quanto as planícies do Cazaquistão, aos pés dos montes Urais, onde ela se desenrola. Não, não adianta procurar no Google, pois esta estória familiar russa é passada de pai para filho e me foi contada por meu grande amigo “Yuri”, da máfia russa – Vor V Zakone – ex-capitão do exército soviético, fugitivo dum gulag em 1976 onde esteve detido e hoje refugiado no Brasil, onde ministra cursos e importa e comercializa finas matérias-primas para a falsificação, digo, produção doméstica e artesanal de bebidas, perfumes e cosméticos. Mas isso não vem ao caso.

Conta a lenda que na Rússia dos czares, houve uma vez um lenhador muito pobre e já idoso, cujas únicas posses eram: seu casebre de toras, uma velha carroça, seu machado mantido sempre bem-afiado, seu velho e ensebado cachimbo e um velho e mal-tratado asno. Todos os dias, lá estava o velho lenhador derrubando jovens salgueiros, álamos, choupos e olmos brancos e dividindo-os em toras do comprimento de sua carroça e com elas formando pilhas, que seriam carregadas e vendidas na manhã seguinte, no mercado de seu vilarejo.

Um belo dia, enquanto guiava a carroça, o lenhador percebeu que nasciam duas estranhas protuberâncias nas costas de seu asno. “Devem ser duas belas bicheiras!” exclamou, tragando e dando outra baforada em seu fedorento cachimbo e estalando as rédeas, fazendo o asno apertar o passo. Dia após dia, o velho lenhador observava as protuberâncias aumentarem, misteriosamente. Até que, certa manhã, olhou pela janela e viu seu asno pairando no ar, a poucos metros de altura do chão, contido apenas pela corda que o amarrava. “Devo estar sonhando!” disse o velho, que correu para fora, ainda em pijamas, e viu que das duas saliências nas costas de seu animal de tração, havia brotado um belo par de asas prateadas. É que na verdade, seu pobre e negligenciado asno não era uma cavalgadura comum e sim, um magnífico Pégaso, que havia enfim, atingido a idade de sua metamorfose. Sem pestanejar, o velho foi buscar seu fiel e sempre bem-amolado machado e, com golpes únicos e certeiros, decepou cada uma das asas do animal. Seu vizinho, pastor de cabras que não morava muito longe dali, assistia à cena e questionou, indignado: “Mas por que fizeste isso? Um asno voador seria capaz de transportar muito mais lenha e muito mais rápido! Imagine, o senhor poderia ir voando todos os dias, levar a lenha para o mercado!” Ao que o velho respondeu, enquanto limpava o sangue do machado: “De jeito nenhum! Imagine se ele saísse voando por aí e não voltasse mais! Como eu iria levar a minha lenha para vender?” E mau-humorado, bateu a porta de seu bangalô.

Pouco depois, ele açoitava o pobre asno caminho afora, para que puxasse a pesada carroça, através do charco do degelo dos Urais, conduzindo a lenha para o mercado e, no caminho de regresso, arrastava penosamente a velha e rangedora carroça, repleta de mantimentos para si e para seu vizinho, com quem o velho os trocava por carnes de cabrito.

Na manhã seguinte, o velho acordou ressabiado com um ruído alto, como um rufar de grandes asas. Olhou pela janela e… lá estava de novo, seu asno pairando no ar, flanando suas prateadas asas. “Com mil demônios!” vociferou, ao agarrar seu machado e irromper porta afora, decepando de um único golpe ambas as asas, aproveitando-se do fato que a corda que amarrava o animal era bem curta e não permitia que ele pairasse mais alto. “Maldito seja este animal estúpido!” urrava. E, repetiu-se neste dia, o calvário de anos a fio do pobre asno: tracionar a pesada carroça de toras para o mercado pelos charcos do degelo dos Urais na Primavera e com ela retornar, carregada de compras.

Debilitado pela hemorragia da amputação negligenciosa das asas e pela fadiga, o pobre animal enfim, pereceu. “Que vá puxar a carroça do diabo!” Exclamou o velho lenhador. Enquanto amolava seu estimado machado, sofreu uma violenta crise de tosse e, logo seguir, desabou pesadamente no chão de tábuas da cozinha. Seu vizinho escutou o baque e, alarmado, acorreu em seu auxílio e arrastou-o com dificuldade, colocando-o em sua cama. Os anos da fumaça de mistura de ervas do cachimbo do velho haviam finalmente cobrado seu derradeiro tributo.

Durante a madrugada, as crises de tosse foram piorando e, pela manhã, o pobre velho já se esgoelava, arfando e boquejando qual peixe fora d’água, em busca do ar que lhe faltava. Dias se passaram, em lenta agonia. Seu vizinho à sua cabeceira, havia lhe trazido uma parca refeição, pois os mantimentos em ambas casas já estavam no fim. Admoestou ele: “Vês o que fizeste, velho? Se não tivesses arrancado as asas do pobre asno, ele poderia levá-lo até a cidade voando, em busca de um médico! E já quase não tenho o que comer em minha casa, quanto mais o que lhe dar de comer! Um asno voador poderia teria levado muito mais lenha para vender e trazido muito mais mantimentos para as nossas despensas! Viste o que foste fazer, velho?”

E aproveitando o longo fôlego de seu derradeiro suspiro, o velho lenhador justificou:

“AO MENOS EU NÃO DEIXEI ELE FUGIR DE MIM!”

E expirou.

Moral da história…

KDF

 

Advertisements

Leave a comment

No comments yet.

Comments RSS TrackBack Identifier URI

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s